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  • Ricardo Suman

É tudo culpa da coluna

Ok, há um certo exagero no meu título. Mas durante minha experiência clínica encontro muitos sintomas (como dor, formigamento, diminuição da sensibilidade local) em diversas regiões do corpo que são provenientes de problemas da coluna. Sabe aquela dor no seu dedão do pé que você passou por diversos médicos e nenhum conseguiu diagnosticar? Pode ser culpa da coluna! Sabe aquele zumbido que você ouve durante dias mais tensos, ou dias que trazem ansiedade excessiva? Pode ser culpa da coluna!

Explico-me. Há um certo termo médico chamado dermátomo. Segundo o dicionário:

Dermátomo  - Segmento cutâneo inervado por fibras provenientes de uma única raiz nervosa

De uma maneira mais fácil. Entre cada vértebra de nossa coluna saem nervos que vão para as mais diversas regiões do corpo, cobrindo assim o corpo todo. Temos dois tipos principais de nervos, os aferentes e os eferentes. Sendo que um comanda apenas nossos movimentos (eferentes), enquanto o outro comanda nossa sensibilidade (aferentes). Se há na coluna algo que comprima este nervo podemos ter algumas reações desta compressão. Se ela é aplicada nos nervos eferentes, podemos ter um leve ou grave perda de força em um ou vários grupos musculares (mas isso explico melhor em um posto futuro). Agora, se esta compressão é sobre o nervo eferente podemos ter dores ou diminuição da sensibilidade em todos órgãos do corpo. 

Para melhor compreensão:




Agora olhe que simples. Esta nomenclatura C4, T5, L1, S3.... é referente à região da coluna correspondente à saída do nervo. Como cada vértebra é feita de osso denso, os nervos saem da coluna através do espaço entre as vértebras. Ou seja C4 significa o espaço entre a quarta e quinta vértebra cervical (pescoço), T5 significa o espaço entre a quinta e sexta vértebra torácica. E assim por diante. 


Tudo isso para chegar aos dermátomos. Uma dor no dedão do pé, como exemplifiquei acima, pode ser devido a uma compressão do nervo espinal de L4. Um formigamento no polegar pode ser devido a uma compressão do nervo espinal de C6. E assim vai...


Outro exemplo comum na prática clínica: de repente, sem causa nenhuma aparente, aparece uma dor na sua virilha direita. É comum imaginar uma pequena distensão ou contratura da musculatura da virilha. Exames ortopédicos todos limpos, sem nenhuma lesão aparente na região. O ortopedista normalmente encaminhará para a fisioterapia ortopédica. Trata-se a região com alongamentos, fortalecimentos, aparelhos para tirar dor local e a dor persiste. O paciente começa a pesquisar mais... Gastroenterologista para pesquisar se a causa da dor é uma hérnia inguinal (quando o intestino passa por um pequeno túnel e chega perto da virilha causando certo incômodo), e nada. Urologista para a pesquisa de algum problema no aparelho reprodutivo masculino, ou ginecologista no caso das moças, e nada. E então ele vai ao neurologista. Este, por exames complementares, encontra uma compressão no nervo da coluna lombar (dermátomo L1) e encaminha para a fisioterapia específica. 


E é assim que alguns pacientes chegam em minha clínica. Depois de diversas consultas e tratamentos sem grandes melhoras, e com uma dor já crônica. 


Muitos problemas são pontuais e fáceis de encontrar sua causa. Mas em alguns casos é necessário maior pesquisa, e principalmente uma globalização desta pesquisa. Pois como vimos uma dor na virilha pode ser caso ortopédico, gastrointestinal, urológico ou neurológico. É muito mais fácil tratar uma dor sabendo a causa dela, e é um erro muito comum de muitos médicos e fisioterapeutas tratarem apenas o sintoma e não o que causou este sintoma. É mais fácil começar o tratamento a partir do ponto em que sabemos o que causa o problema em questão.

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